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Quarta, 19 Abril 2017

A Casa do Porco Bar: Jefferson Rueda finalmente em casa

A Casa do Porco

Visitei algumas vezes o Attimo durante o período em que Jefferson Rueda esteve no comando da cozinha. Sempre comi muito bem, mas era palpável a desconexão entre o ambiente do restaurante e sua proposta culinária. A sensação era a de que o chef não se sentia em casa. O que ficou ainda mais claro pra mim quando estive, há alguns meses, em sua nova morada.  Na Casa do Porco, Rueda é grande porque ali pode ser inteiro.

Instalado no Centro de São Paulo, a poucos passos do Edifício Copan, onde sua mulher, Janaína Rueda, comanda o Bar da Dona Onça (um dos meus lugares favoritos na cidade), o cozinheiro está à vontade: numa verdadeira ode à anatomia suína, serve comida impecável em ambiente democrático e a preços palatáveis.

A Casa do Porco

Assim que nos acomodaram na parte externa, fomos informados de que o menu De tudo um porco (sequência com diversos  itens do cardápio em pequenas porções) poderia ser servido ali, na calçada, sem firulas. E não há a exigência de que todos à mesa optem por ele. Eis um dos grandes méritos da Casa do Porco: fazer-nos lembrar que o artesanato culinário pode ser concebido com criatividade, refinamento e simplicidade a um só tempo, e que a grande cozinha não precisa estar cercada de rituais excessivos, nem atada a um surrado conceito de exclusividade.

A Casa do Porco

Enquanto decifrávamos a extensa ementa (num primeiro momento me pareceu até extensa demais, o que quase sempre é um risco), pedimos uma porção com algumas das linguiças de produção própria, acompanhadas de cavolo nero, repolho e farofa de cebola. Deliciosas. A de molejas ainda não me saiu da memória.

a casa do porco

Sucumbimos enfim ao menu-degustação. O percurso começou com embutido de cabeça de porco e presunto cozido, acompanhados de pão da casa, mostarda, picles e compota de cebola com bacon. Em seguida, bocados como tostada de morcilla com tangerina (a profundidade de sabor da linguiça dialogando com o frescor da fruta), croquete e delicado pão no vapor com barriga de porco.

a casa do porco

a casa do porco

a casa do porco

a casa do porco

Não se pode deixar de mencionar o feliz casamento do torresmo de pancetta com goiabada picante. 

a casa do porco

Ao fim da sequência, uma das grandes estrelas do cardápio: Porco San Zé, assado por alguns pares de horas, úmido, pele crocante, um assombro. Chega na companhia de tutu de feijão, tartar de banana, couve e farofa.

a casa do porco

a casa do porco

Antes de me despedir, fui ao encontro do indefectível pudim de leite da chef confeiteira Saiko Izawa, que acompanha Rueda desde os tempos do Attimo.

a casa do porco

O almoço aconteceu numa tarde de domingo, horas antes de embarcar de volta ao Rio de Janeiro. No trajeto em direção ao aeroporto, meu marido sintetizou o prazer daquela refeição: "Pegaria a ponte aérea só pra comer ali de novo."

 

A Casa do Porco Bar – Rua Araújo 124 - Centro

 

 

 

 

Quinta, 08 Dezembro 2016

Lenha no fogão: comida e memória no sul de Minas Gerais

Fazenda São José da Vargem              

     “Eu diria que a cozinha é o útero da casa: lugar onde a vida cresce e o prazer acontece, quente...”

A frase de Rubem Alves soa como verdade absoluta nas casas mineiras. Ao menos naquelas que tive oportunidade de visitar no último fim de semana no sul do Estado.

A convite do CVB de São Lourenço, percorremos estradas que passam por Aiuruoca, Baependi, Serranos e São Vicente de Minas, numa incursão pelo universo de cozinheiras que, na invisibilidade de suas cozinhas, mantêm vivas as tradições da região. A louvável iniciativa me pareceu uma forma inteligente de promover o destino, trazendo à tona um de seus maiores monumentos, a culinária, elemento fundamental na compreensão desse gigante patrimônio cultural que é Minas Gerais.

O roteiro foi concebido por Juliana Venturelli*, cujo trabalho de conclusão de curso na pós-graduação em Memória Social na UniRio foi uma dissertação intitulada NARRATIVAS CULINÁRIAS E CADERNOS DE RECEITAS DO SUL DE MINAS: da memória oral à memória escrita.

O trabalho, que também deu origem a um livro para o qual Juliana ainda busca editora, surgiu de uma inquietação sua: “Eu buscava por um sentido anterior à glamourização da comida, algo em consonância com o que eu vivi nas cozinhas da minha infância. As imprecisões, a demora, a espontaneidade e o amor ao ofício.”

Lenha no Fogão Juliana Venturelli

Na beleza da imprecisão das cozinhas mineiras, Juliana reencontrou caminhos. Ao longo de dois dias intensos e inesquecíveis, ela nos conduziu por alguns deles. A seu lado, tivemos o privilégio de ser recebidos por moradores da região em suas casas, experiência que dificilmente teríamos por outros meios.

Juliana Venturelli

O percurso teve início na Fazenda São José da Vargem, em Baependi, onde as irmãs Marita e Miloca foram nossas anfitriãs. Marita, boa de prosa, nos contava histórias enquanto experimentávamos o farto almoço preparado por Miloca e seus ajudantes, servido no antigo depósito de mantimentos da propriedade. O casarão histórico onde a mais velha nasceu é hoje aberto a visitas de grupos, que são recebidos com um café colonial com todo tipo de quitandas que povoam os cadernos de receitas de Miloca.

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Nosso almoço começou com deliciosos pães de queijo. Em seguida, houve costela temperada com pinga e rapadura, aipim, couve manteiga, angu, tutu, linguiça e torresmos crocantes como biscoitos. Como manda a tradição, a refeição se encerrou com doces e compotas, café e rosquinhas de nata.

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Fazenda São José da Vargem

Dali, seguimos pra Cruzília, terra de Juliana e da simpática Hilma, que nos recebeu em sua cozinha, onde nos mostrou o preparo das balas de coco que brilham nas festas de aniversários e casamentos na vizinhança. O trabalhoso processo, que demanda extrema habilidade, parece simples nas mãos de Hilma. Pudemos prová-las ainda mornas, com a textura mais elástica, que se modifica depois. Já secas, resultam balas daquelas que derretem na boca. Uma beleza.

Cruzília

Hilma Cruzília

Hilma Cruzília

O dia seguinte nos reservava experiências ainda mais tocantes.

O almoço oferecido na casa das irmãs Tininha e Terezinha, em Serranos, reuniu algumas das melhores cozinheiras da região. Lurdinha preparou um saboroso frango com leite (leite de verdade, gordo, com nata). Gracinha ficou encarregada do arroz e do feijão (a que acrescenta urucum, o que lhe confere um caldo dourado). Cida nos brindou com taioba refogada e um angu de brilho incomparável.

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

Dona Sônia garantiu a sobremesa: doce de abóbora, feito com maestria, tal como lhe ensinaram a mãe e a avó. Os cubos de abóbora permanecem duas horas em cal virgem, formando-se uma pele, enquanto o interior se mantém macio e úmido. Minha memória me diz que é o melhor que já experimentei.

Serranos Minas Gerais

Serranos Minas Gerais

No fim da tarde, o destino era São Vicente de Minas. O jantar foi preparado pelo cozinheiro Dito, que comanda na cidade o restaurante Forno Quente. Como calhou de estar fora no dia em que lá estivemos, ele nos deixou um banquete pronto, que foi servido por suas vizinhas Isa e Renata, mãe e filha, que gentilmente nos acolheram em sua casa, uma bela construção histórica. Providenciaram café e broas de coco e de abóbora – não sei se é uma visão romântica, mas minha impressão é a de que, nas mesas mineiras, há sempre café e quitandas à espera de uma visita – e até mesmo um violeiro pra tocar pra nós.

são vicente de minas

são vicente de minas

Ao som da viola caipira, compartilhamos o saboroso jantar feito por Dito: creme de abóbora com carne seca e canjiquinha com costelinha.

são vicente de minas

As horas que passamos ali reforçaram minha convicção de que não há no Brasil povo que acolha como o mineiro. Difícil é ir embora. Como diria Guimarães Rosa, “despedir dá febre”.

 

*Juliana Venturelli guia grupos em visitas periódicas ao sul de Minas, em roteiro intitulado Lenha no Fogão. Os itinerários são cambiantes, não necessariamente idênticos ao que fiz, mas sempre voltados para os cozinheiros entrevistados por ela na pesquisa que deu lastro à sua dissertação. As próximas saídas em 2017 acontecerão de 19 a 22/01 e de 13 a 16/04. Para informações, entrar em contato através do e-mail juliana.saborciranda@gmail.com.

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